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sábado, 31 de julho de 2010

Diana


Em noite de lua cheia,
Pra caçar saiu Diana.
Era aranha em sua teia,
Era fogo em sua flama.

Lindo seu brilho no lago,
No meio do mato vago.
Nada mais via que a lua
Quando a noite se insinua.

Eis que um estranho aparece,
E da caça Diana esquece.
Era Adônis a surpresa.

Cujo encanto era a beleza.
Bem em frente ao luar,
Diana começa a amar.

Vênus anadiomene


Dentro d´água nasceram a vida e a beleza.
Dos seus cabelos anadiomene com leveza,
Retira a água e os restos de natureza.
Despejada do Céu e do Mar sua alteza.

Ao céu, à terra e às ondas provê desejos
De três tipos diferentes: um benfazejo,
Outro que só se preocupa com o cortejo,

O terceiro desejo exerce tal crueza,
Que leva à humanidade uma grande incerteza.

É o tipo de amor destruidor e malfazejo.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Aluno e professor


Já ensinei milhares de alunos;
De alguns tenho saudades,
De outros tenho orgulho.
Mas, da grande maioria,
Não tenho noção se existia.
Nem me lembrarei com alegria.
Ainda assim quando eu ensino,
Vou munida do coração.
Porém nem sempre o abro,
Já que o deixo no portão.
Vejo-me, com muito espanto,
Ser a esfinge que temia:
Decifra-me ou te devoro,
Era a expressão que eu ouvia.
Mas de todos os meus mestres
Eu me lembro com carinho,
Pois eles que me ajudaram
A escolher meu caminho.

OU


LOUCA,
OCA,
DE VIDA
POUCA.
ROUCA ,
FOSCA,
PERDEU-SE
A ROSCA.
VIM
ASSIM,
CORREU
DE MIM.

Vou à guerra


Vou à guerra,
Todo dia.
Estou na terra,
De Ave Maria.

Visto o elmo
E a armadura
Travo batalhas
Que estão na rua.

Não sou soldado
Estou ao lado
Sobrevivente
Em meio a gente.

Tenho filhos,
Nado em rios,
Vivo contente,
Não sou demente.

Eis que a batalha
É minha mortalha
E meu descendente
É eloqüente.

Volto da guerra
Que se encerra.

Vozes


Há vozes que falam em mim,
Estas sempre dizem sim.
Há a alma que está em tudo,
Esta me conhece a fundo.
Há palavras que transbordam,
Estas sempre me acordam.

E eu, onde estou?
Estou pra onde eu vou!

Pra onde me levam as vozes,
Pela trilha das palavras,
Palavras apaixonadas,
Enquanto são evocadas.

Várias faces


Você diz que eu tenho várias faces,
Não sei qual delas você mais ama.
Existe uma que é tua amiga,
Outra que nem te liga.

Existe uma que te preza,
Outra que te despreza.
Existe uma que é apaixonada,
Outra que é desconfiada.

Existe uma que te quer,
Outra que nem é mulher.
Existe uma que te espera,
Outra que se desespera.

Existe uma que concorda,
Outra que nem te aborda.
Existe uma que traiu,
Outra que te pariu.

Qual delas você quer que eu seja?
A que ainda te deseja?
Ou a que a tudo almeja?

Existe uma que é cruel,
Outra que veste o véu.
Existe uma que é muito antiga,
Esta que nem te liga.
Existe uma que é criança,
Esta tem esperança.

Ainda bem que é paciente,
Assim não fica doente.

Existe uma que vive contigo,
Na alegria, na tristeza,
Na saúde, na doença.
Esta face enxerga adiante
E será sempre sua amante.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

(EX) OTÉRICA


Não sei quando tudo começou. Entenda-se por quando em algum tempo, sobre o planeta Terra. Sim, porque também não sei onde. Mas digamos que há alguns anos, resolvi ser membro do rosacrucianismo. Cheguei a frequentar algumas sessões com meu marido, na época. Ele era muito curioso e fanático. Achava que ser membro de uma destas filosofias de vida lhe conferiria o poder metafísico de tornar sua vida melhor. Ele também não admitia que eu fosse melhor do que ele ou que o poder extrasensorial pelo qual ele lutava chegasse às minhas mãos sem qualquer esforço, enquanto ele se dedicava e não obtinha os mesmos resultados.

Não sei da vida dele atualmente. Quanto à minha, sempre optei pela praticidade e pela sobrevivência pacífica acima de qualquer outro poder sobrenatural. Mas, felizmente ou infelizmente, nasci com um poder que devo carregar de outras existências. Acredito que seja por próprio merecimento, uma vez que sempre prezei a liberdade de escolha e sempre respeitei as escolhas dos meus semelhantes. Não sei nem nunca soube impor nada a ninguém, sequer acredito em imposições.

Porém, uma vez dentro do templo Rosa Cruz, em meio à uma sessão de meditação, tive uma visão. Eu me vi há mais de três mil anos, na antiga Atenas. Eu era uma sacerdotisa e como tal não tinha o direito de me apaixonar por ninguém. Eu era apenas consultada pelos cidadãos que desejavam um conselho ou uma previsão para suas vidas. Meu lugar era dentro do templo, onde ervas queimavam e exalavam uma fumaça cheirosa e relaxante, capaz de nos colocar num estado de transe hipnótico. Assim, fora do estado normal de consciência, eu era capaz de profetizar.

Apesar de receber o respeito que cabia aos deuses, eu era apenas uma escrava da minha própria condição. Meu pai era um cidadão ateniense, cheio de respeito, poder e regalias. A minha mãe ocupava a regalia de ser sua esposa. Eu vivia longe deles, uma vez que meu momento de servir à sociedade já havia chegado. Mas eu não era feliz e não me sujeitei às regras sociais. Apaixonei-me por um soldado, que já estava comprometido com outra mulher e fiz tudo para que ele ficasse comigo. Consegui meus intentos e fiquei grávida. Fugi do templo e da cidade. Fui proscrita.

No entanto, o povo ateniense não perdoava uma transgressão. Ainda que eu já vivesse com dificuldades, sozinha no deserto, eles mandaram um sacerdote para me buscar. Meus pais foram punidos pelas minhas transgressões. Perderam a casa, os bens, o poder e os privilégios.

É claro que eu jamais imaginei que eles pudessem ser punidos por minha causa. Achei apenas que eu pagaria pelos meus erros sozinha, como já estava. Grávida e abandonada, eu tinha que lutar pelo meu próprio sustento. Sem contar com nenhuma das regalias do então mundo civilizado, sem o homem por quem eu me apaixonara, sem direito a ser feliz. Pelo menos, eu estava viva. Sempre valorizei a vida acima de qualquer coisa. Mundo espiritual, que nada! A vida contava no aqui e no agora.

Entretanto, oito meses depois, quando minha barriga já estava grande, o sacerdote apareceu. Trouxe uma imensa espada e não me deixou o direito à vida. Eu e o bebê, que eu esperava, fomos sacrificados, com a barriga brutalmente atravessada pela espada cerimonial. Como odiei os crentes e a religião, como odiei os iludidos pelo mundo dos deuses, no qual eu não acreditava mais!

De volta ao templo Rosa Cruz e ao século XX, pude verificar que o sacerdote que me matara fora o mesmo ginecologista obstetra que salvara minha vida quando provocou a dilatação e tirou do meu ventre o feto morto que eu ainda acreditava que estivesse vivo. A mesma alma que antes cobrara minha condenação, agora me salvava da possível morte junto com o feto morto que eu carregava e me dava uma nova chance de vida.

Foi assim que apesar de dar à luz um bebê natimorto, o luto passou a doer menos e aceitei ressarcir minhas dívidas e perdoar àquele que agora me salvava.Aprendi que nada é à toa. E se eu tinha o poder de ver vidas anteriores e reconhecer pessoas, isto não era por acaso, era apenas para me fazer reconhecer a sabedoria divina e ser agradecida pelas dádivas alcançadas.

A vida é realmente difícil. Aqui se faz aqui se paga. Este é um fato. E somos felizes por termos esta oportunidade de nos esclarecermos. Quais as razões da vida? Não sei, só sei que ela sempre vale a pena!

Na Igreja da Matriz


Era mês de junho, próximo às festas juninas. Alice, Mônica e Berenice costumavam andar alguns quilômetros da região onde moravam, para pegar o ônibus e subir o alto do morro que dava para a bela Igreja da Matriz de Piraju. Alice tinha dezessete anos, Mônica tinha quinze e Berenice tinha doze. Naquele dia, como em vários outros, elas foram à missa e foram observadas pela Irmã Honorina, uma freira interessada em montar um coral de músicas gregorianas para cantar na missa de São João, a realizar-se na Igreja.

Depois da missa, ela pediu que as meninas esperassem e lhes fez o convite:

_As senhoritas têm interesse em participar de um coral de meninas que estou organizando? Teremos ensaios todas as segundas, quartas e sextas-feiras, aqui mesmo. Trata-se de um coral de músicas gregorianas. Vocês conhecem músicas gregorianas?

_Sim, irmã. Mas, é claro! Responderam as três, empolgadas.

_Você virão então?

_É claro que sim. Concordaram novamente as meninas.

A partir daí, todas as segundas, quartas e sextas-feiras, as meninas seguiam para a missa, à qual assistiam e depois iam cantar no coral. Como isto ocorria com frequência, Alice começou a observar melhor o motorista do ônibus, que era sempre o mesmo. Ele era alto, moreno, bonito, sorridente. Alice ficou entusiasmada. Afinal, era um homem muito interessante! Um dia, notando seus olhares, ele puxou conversa:

_Onde vão estas moças bonitas todas as segundas, quartas e sextas-feiras?

_Vamos à igreja, respondeu Alice. Estamos ensaiando para cantar no coral.

_Cantar no coral da igreja? Que pena que eu tenho que trabalhar, senão eu ia à missa só para ficar lhe admirando!

_É mesmo? Perguntou Alice, feliz.

_Certamente, disse o motorista. Como você se chama?

_Meu nome é Alice e estas são minhas irmãs: Mônica e Berenice.

_Muito prazer, meninas. Meu nome é João Rodrigues.

_Prazer. Disseram Mônica e Berenice, só que não tão interessadas quanto Alice.

Então, o interesse mútuo foi crescendo a ponto de Alice nem ir mais participar do coral de músicas gregorianas. Ela saía junto com as irmãs, porém não seguia para a igreja, ficava passeando de ônibus até o horário de ir embora para casa.

Assim quando foi dia doze de junho, Alice e João começaram a namorar, pois ele foi à casa do Seu Ângelo pedir a mão da filha.

Alice estava muito apaixonada. Como não poderia estar? Afinal, João era um homem lindo! Carinhoso, apaixonado, romântico, ele era um conquistador. Alice notava que quando estavam juntos não havia mulher que não olhasse para ele. Mas para Alice isso era bom, significava que ela era melhor do que todas as outras que o desejavam, pois era ela quem estava com ele.

Alice começou a preparar o enxoval, sonhando que depois do casamento ela seria ainda mais vitoriosa, porque teria conquistado João definitivamente. Alimentando esta ilusão, ela não via a hora de se casar. Assim, um ano depois, eles se casaram. O Senhor Ângelo ficou muito triste, pois achava que a filha era muito nova para tomar esta decisão tão importante e arcar com as consequências. Mas Alice tinha a personalidade forte e decidida, não adiantou o pai pedir, falar, e chorar. Ela se casou.

A vida para ela parecia uma vida de sonho, maravilhosa, especial! Um mês depois, quando chegou o dia do pagamento, João não voltou para casa. Alice esperou seu retorno a noite toda acordada, imaginando o que poderia ter acontecido. Mal amanheceu e João entrava pela porta, cambaleante.

_Onde você estava? Perguntou Alice furiosa, ao perceber que o marido estava bêbado.

Neste momento, seu mundo ruiu. Ela não era mais tão especial quanto acreditava, pois no dia do pagamento, o marido retornava de madrugada, bêbado, com marcas de batom na camisa e cheirando a perfume barato! Não, isto ela não podia aguentar! Então, pegou a panela cheia de arroz que estava ao seu alcance e jogou no João.

_O que é isso, mulher, você está louca?

_Louco está você de pensar que eu sou idiota, que você pode me enganar como qualquer mulher da zona! Onde é que já se viu? Você está casado!

_Ué, eu sou macho! Homem que é homem não nega o que qualquer mulher pede.

_Qualquer mulher?! É isto que você acha que eu sou? Você me tirou da casa do meu pai!

_Por isso que eu me casei com você, senão não teria casado.

_Seu cafajeste! Agora voavam a panela de feijão, bem como outras panelas da casa.

_O que é isto? Vai quebrar tudo! Então, João, segurou os braços da mulher que insistentemente batiam nele, carregou-a para o quarto e fizeram as pazes na cama.

Já que estavam casados, Alice relevou este momento de fraqueza e começou a se iludir que o marido mudaria depois que fosse pai. Por isso, Alice ficou grávida de um menino que recebeu o nome de João Alberto.

Durante alguns meses, tudo pareceu mudar, mais porque João evitava deixar a mulher zangada, do que pelo fato de ter realmente mudado de atitude. Até que um dia, depois de receber o pagamento, João chegava tarde novamente e a cena se repetia. Agora o barulho de Alice devido à revolta contra a atitude do marido, só fazia o pequeno bebê acordar e começar a chorar. Então, Alice irritada, parava a briga para ir atender o filho. Infelizmente, estas brigas tornaram-se rotina.

João sempre acordava cedo para ir trabalhar e saía de casa passando frio, mas como os invernos vinham sendo rigorosos, não se preocupou em verificar a insistência de uma tosse. Por mais que Alice lhe dissesse para procurar um médico e se tratar, o marido não se tratava nem deixava de passar noites em claro, fazendo farra. Até que ele passou por um exame médico no emprego e lhe disseram que estava com problema no pulmão. Então, o médico o mandou ficar isolado em Campos do Jordão,num hospital especializado em tuberculose.

Alice foi visitar o marido algumas vezes, junto com o pai, o Senhor Ângelo. No entanto, esta visita era muito difícil, pois há sessenta anos era um percurso de oito horas, cerca de 440 km de distância. Alice ficava em casa, cuidando do pequeno João, recebendo ajuda do pai além do apoio moral da mãe.

Dois anos depois, João recebeu alta médica. Voltou para casa feliz e Alice ficou mais feliz ainda. Ela pensava que como o marido estivera doente, mudaria de atitude. E esta mudança ocorreu, porém não durou muito. Poucas semanas depois, a vida desregrada voltaria e João ficaria doente novamente. Porém foi definitivo.

O casamento de Alice com João resultou em decepção e muita briga. Concluindo com a viuvez de Alice aos vinte e dois anos. Daí para frente, ela contaria com o apoio dos pais para criar o pequeno João Alberto e passaria a ter uma vida profissional que duraria até o fim de sua vida. Entretanto, jamais se casaria novamente. Alice era o tipo de mulher que quando se decepciona é para sempre.

ORQUÍDEAS



Observei seus retratos,
E me encantei com as orquídeas.
São naturais, não são suas,
Mas você as imortaliza.

Suas cores e formatos
Me atraíram e embeveceram.
Como são flores faceiras!
Como são frágeis criaturas!

Elas vivem da seiva
e parasitam as árvores.

Não podem viver isoladas,
São belas e dependentes:
De uma mosca abusada,
De outros seres ausentes.

Assim são polinizadas.
São glamorosas,
São maculadas,
São equatoriais
São tropicais.

Dependem de seres pequenos
E de um único pedículo
Originam diversas flores
Despertando infinitos amores.

É o que diz a narrativa
Da nativa indiferente
Que mata homens valentes
Por não amá-los o suficiente.

São exuberantes as orquídeas
E ficam ainda mais bonitas
Quando o homem delicado
Com o toque de um palito
Passa suas políneas ao bulbo
Criando seres mestiços.

Este é o mundo das orquídeas
Que você fotografa num segundo
E eu continuo seguindo.

Conto Histórias


Conto histórias pra minha mãe,
Conto histórias pra minha filha,
E quando conto como elas mudam!
Pingam como gotas de chuva,
Florescem como margaridas,
Iluminam minha vida.
Enfeitam meu regaço
E se enrolam
Como novelos de linha.
Sempre tecendo,
Sempre entretendo.
Mas um dia elas se partem,
Dão novos nós
Costuram outros retalhos.
Tudo começa como trapos
E termina como espantalhos.
Gosto de contar histórias.
São verdadeiras ou fantasiosas?
São reais!
Isto já não importa,
Para mim são valiosas.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

OLHAR

BOCA

Holograma


HALO
HOLOGRAMA
HÁ NO HOLOGRAMA
HÁ NO OLHO
ALÔ
HALO

HÁ NO HOLOGRAMA
HALO
NO HOLOGRAMA
HÁ OLHO
HÁ NO OLHO
HOLOGRAMA

Meu destino


Meu destino não é
mudar.
Meu destino é
entender.
Meu destino não é
calar,
meu destino
é crescer.

Meu destino,
o que sei do meu destino?

Meu destino é
saber escolher.

Por isso sei,
por isso escolho,
por isso faço,
por isso não tenho medo.

Porque conheço meu destino.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

1920


O pai era um rico relojoeiro, vindo da Itália, cuja família desembarcou no porto de Santos em 1880, chamado Amadeu Raphael Marino. Além de relojoeiro, era ourives. Carregava da família de origem todos os bens que pudera trazer, embrulhados dentro de sacos de pano, presos no forro das roupas. Não pudera trazer terras, nem castelos. Mesmo porque os nobres deixavam apenas aos filhos mais velhos seus bens e títulos. Assim, carregara da família o que pudera. Disposto a encontrar vida nova na terra até então desconhecida.

Seu filho mais velho, Ângelo Raphael Marino era um rapaz privilegiado. Fora uma das primeiras pessoas a ter um automóvel Ford no Brasil. O que não dirá no pequeno povoado de Iguape? Ser um jovem de dezoito anos com automóvel preparou-lhe para a profissão de mecânico quando a família faliu, em decorrência de uma grande enchente na região_o que soterrou ouro e jóias. Não apenas o que a família trouxera da Itália, como os bens adquiridos com os anos de trabalho.

Assim, Ângelo foi trabalhar como mecânico na Companhia Ford, quando esta empresa começou a se instalar no Brasil, produzindo tratores aos pecuaristas. Foi por esta ocasião, que aportou na Fazenda do Senhor José Mendes. Ofereceram-lhe um trator para facilitar a aragem e preparação da terra. Seu uso equivalia a puxar vinte cavalos, enquanto José Mendes sozinho puxava um burrico. Aventar a possibilidade de trabalhar mais em menor tempo e com menos esforço, entusiasmava o fazendeiro, que já previa poder plantar mais e ganhar mais dinheiro com a terra. Por isso, ele aceitou, desconfiado, comprar um trator, contanto que a empresa lhe enviasse um mecânico para garantir que a máquina funcionaria. O mecânico enviado a sua fazenda foi Ângelo Raphael Marino.

Senhor José era um homem trabalhador e determinado. Em sua personalidade não existia o manejo social, tampouco o carinho ou a dedicação de pai. Tinha quatro filhas, Maria, a mais velha, desde tenra idade era acordada pelo pai com um puxão de cabelo a fim de que buscasse água na mina. Não aprendera a ser carinhosa ou atenciosa. Para ela o amor não era doce ou suave, não tinha manifestações de incentivo ou acalento.

A mãe era kariboka, ou cabocla, filha de índia e português, vivia largada pelos campos quando conheceu o marido. Era forte, bonita, esperta, trabalhadora, características mais do que suficientes para ser boa esposa. Foi assim que José Mendes se casara com ela. Decidira ter filhos para o ajudarem na fazenda, então colocou-a dentro de casa. Mas a índia tivera quatro meninas. Para que serviam as mulheres além de cuidar da casa e do marido? José não tinha ficado satisfeito. Pelo menos, suas filhas serviam para ajudar a cuidar da casa. Por isso, Maria Astrogilda, a mais velha, era quem primeiro acordava. Como tinha sono pesado, Seu José a puxava pelos longos e fartos cabelos, que só para isso serviam.

Maria Astrogilda tinha treze anos quando isso acontecia. Não reclamava da violência, porque não existindo para ela nada de diferente, era parte do dia. Além disso, aprendia esta indiferença e dureza de atitudes com o pai. Com a mãe aprendia a ser mulher, portanto, naturalmente resignada e silenciosa. Mas Maria não era tão silenciosa, seu olhar falava alto. Seus olhos só eram mudos para quem não os observava. Seu José podia não ver, porém sentia a indignação da filha. Isso lhe fazia agir com ainda mais dureza. Afinal, mulher, além de tudo, filha de uma kariboka, não tinha direito de reclamar, tinha que fazer por merecer o que ele gastava com seu sustento.

Ângelo quando conheceu Maria ficou impressionado. Como uma menina podia ser tão determinada, tão forte, tão mal humorada. Algumas vezes, na fazenda, quando verificava o funcionamento do trator, Ângelo sentava na cerca ou num tronco de árvore, onde Maria estava sentada e puxava conversa. Adorava observar seus gestos bruscos e seu olhar determinado, que ao mesmo tempo falavam tão alto o que passava em sua alma.

Uma semana depois, Seu José Mendes convidou o jovem Ângelo para jantar com a família. Ângelo aceitou o convite. Na hora da sobremesa, Maria sentou ao piano para tocar um pouco do que aprendera com seu preceptor, um homem de preto, paletó e gravata, que vinha à fazenda uma vez por semana para instruir às filhas de Seu José.
Ângelo, num impulso, passa os braços ao redor do encosto da cadeira em que Maria sentava. Seu José na sua rispidez e seu jeito ladino, pergunta de chofre:

_Para quando é o casamento?

_Para o próximo mês está bom para o Senhor?

_Maria, comece a aprontar o enxoval!

Tanto trabalho, tanta arrumação! Maria já era ótima quituteira. Juntou as irmãs na cozinha e prepararam a festa. O enxoval fora preparado na correria, mas já tinha colocado num baú de madeira, as camisolas e roupas de baixo. Ainda bem que os futuros sogros ajudaram: o italiano Amadeu Raphael Marino e a brasileira Brasilícia Glicéria Rita de França. Maria nunca vira até então mulher mais delicada e elegante. Lembra-se a primeira impressão ao ser apresentada à sogra:

_ Mas ela é uma menina! Disse Brasilícia, com olhos delicados e comovidos, abraçando-a. Maria ficara muito impressionada ao receber tanto carinho e tanta doçura.

Foi divertido organizar a festa de casamento. Mas quando tudo passou, Ângelo levou Maria para casa, colocou-a na cama e ouviu de sua boca:

_Ângelo, eu não gostei desta brincadeira de casamento. Me leva pra casa?
Então, Ângelo percebeu que precisaria ter paciência. Pois casara com a força de caráter, com a dedicação, com o trabalho e com a ingenuidade. Tomara à força uma plantinha que ele tinha de cuidar. E foi o que fez por cinqüenta e oito anos.

Sorte minha tê-lo conhecido e ouvido suas histórias. Quando eu tinha treze anos e vivia mal humorada, discutindo com todos, ele sentava ao meu lado e dizia o quanto eu me parecia com minha avó. Então sorria, provavelmente o mesmo sorriso paciente que dava à minha avó cinqüenta anos antes.

A paixão


A paixão pela vida
Contagia
Transita livre pelo
Ar
Inquieta.

A paixão pela vida
É correta
Conserta
Aperta
Desperta.

Cômodas
As pessoas dormem
Tortas, frouxas, largadas.
Dormem.
Querem dormir.

A letargia
É o abafador
Que destrói
A paixão pela vida,
Que não se apaga
E incendeia
Outra freguesia.

Pedido de desculpas


Desculpa, filha,
pelas falhas
da tua mãe.

Desculpa a falta
de compreensão,
de paciência,
de entendimento.

Desculpa pelas
fraquezas
que ela não pôde
sanar.

Desculpa pelas
feridas
que ela não pôde
curar.

Desculpa pelas
Lágrimas
Que ela não pôde
Secar.

Desculpa, filha,
pela falta de razão,
pelas vezes em que disse
Não.

Desculpa, filha,
pelos riscos,
poucos ou muitos,
calmos ou
ariscos.

Desculpa, filha,
a preocupação,
o amolo,
a chamada de
razão.

Desculpa, filha,
desculpa
e obrigada
por trazer luz
ao meu coração.

Por que escrevo?


Não sinto o que escrevo,
Desejo que faça sentir.
Não choro, não me emociono,
Escrevo o que já vivi.

Escrevo por que as palavras
Esvaziam os sentimentos
E trazem à tona
As tramas de batalhas
Que uma vez teci.

Escrevo por que me sinto forte
Mais leve, mais livre, mais solta
Potente, enquanto escrevo.

Liberto-me das amarras,
Das dores, das desventuras.
Exorcizo o sofrimento
E me lanço às alturas.

Escrevo porque quando escrevo
Não sou a mesma pessoa,
Não sou frágil, não sou fraca,
Não desejo, nem lamento.

Escrevo porque quando escrevo
As palavras das prateleiras
Carregam lenitivo
Para as feridas alheias.

Escrevo porque quando escrevo
Amenizo e espalho a cura
Não para a doença do corpo
Mas para a perdição da alma.

Escrevo porque quando escrevo
Lembro e agradeço
Agradeço às lições de vida
Que de outra forma esqueço.

Por isso sinceramente
Não sinto o que escrevo
Confesso que são as palavras
que se sentem em mim.

Homens



Não escrevo sobre os homens
Porque não os conheço.
Que seres humanos são esses
Super homens?
E, no entanto,
É com eles que contamos
Para nos salvarem.

Lua


A lua é a mãe da criação
Por isso carrega a obra no ventre.
Então o melhor momento para criar
É de madrugada.

Sou o que sou


Quem é você?
Uma voz me pergunta.

Sou a encruzilhada,
Sou o ponto de partida,
Sou a segunda vida da águia,
Sou o renascimento da fênix,
Sou o vazamento da barragem,
Sou o ouro de aluvião.

Sou o que em mim existe,
Sou o que a tudo persiste,
Sou minha solidão.

Sou o brilho nos meus olhos,
Sou o halo que me envolve,
Sou a aura em minha face,
Sou o que miro no espelho.

Sou o começo,
Sou a vida,
Sou a morte,
Sou a paixão.

Sou o jogo,
Sou a sorte,
Sou desilusão.

De tudo o que tenho o que mais sou?
Sou aquilo que carrego,
Sou o trabalho que faço,
Sou a porta que fecho,
Sou a arrumação.

O que carrego da vida?
A lida,
A meta,
A sombra,
O exemplo,
A emoção.

O Poder de brincar



Brinco com a vida
e com a morte
porque me foi dado
o poder de brincar.

Porque o carro segue,
apesar do motorista.

Amo a vida ,
Mas não temo a morte.
Porque ela segue
Comigo.

A morte acompanha.
Eu não a busco,
mas eu a vejo,
vejo ainda melhor
quando não sou eu
que dirijo.

Brinco,
Porque o limite é divertido.
É espantoso
enxergar longe
e não estar.

Sinto prazer com o sofrimento,
porque a dor é catarse.
Ela me ensina.
Com ela, vejo além.
Vejo mais,
Entendo mais,
Sei mais.

Perco o limite
Porque o entendo,
Mas não o temo,
Nem o sirvo.

Por que temer o que
Organiza a vida?

Brinco porque posso brincar
Até quando?
Até onde?
Até em que lugar?

Não sei,
mas brinco
Porque posso brincar.